Aprendendo piano sozinho

Um guia para alunos autodidatas

Tocar piano é um ótimo meio para deixar fluir nosso lado mais criativo e emocional, mesmo como hobby, a música oferece uma “saída” emocional e até mesmo espiritual e o piano age como um instrumento de expressão. Há diferentes maneiras de aprender piano, alguns alunos aprendem piano frequentando escolas e conservatórios, outros com aulas particulares, enquanto há aqueles que preferem uma abordagem mais autodidata. Por razões diferentes, não poder pagar por aulas no momento, não terem como adicionar mais uma atividade regular no cronograma semanal ou por preferirem manter sua jornada musical de forma mais particular, sem pressão ou a formalidade de fazer aulas regularmente. talvez se sintam mais confortáveis desta maneira.

Para estes alunos, eu continuo recomendando que eles façam aulas periodicamente, mas são aulas que funcionam mais como uma consulta. Assim que eles tiverem um número de peças que já conseguem tocar, ou quando encontram alguma dificuldade que não consigam resolver sozinhos eles procuram o professor para ter uma aula e receber direcionamento. Fisicamente, eu gostaria de enfatizar a importância de “checar” como você está tocando com um professor regularmente só para garantir que você está mantendo uma boa postura e aprendendo a relaxar para evitar tensões desnecessárias que podem gerar lesão.

Um bom professor também vai ser capaz de te ajudar a superar dificuldades específicas do repertório. Por exemplo, talvez a peça que você esteja tocando tenha passagens com saltos, oitavas ou grandes acordes, o professor conseguirá indicar a maneira mais eficaz de executar tal passagem preservando o gesto musical, a sonoridade e evitando algum tipo de movimento que possa causar lesões, talvez você consiga encontrar a melhor maneira de tocar determinado trecho sozinho, mas alguém com mais experiência pode te ajudar a fazê-lo de forma mais acelerada e mais refinada dependendo do contexto.

Primeiros passos

Se você nunca estudou música ou tocou algum instrumento, e está embarcando nessa jornada sozinho, parabéns! Lhe desejo boa sorte desde já, mantenha-se focado e tenha disciplina na hora de estudar que você verá progresso e sentirá evolução. Seguindo este blog, você também contará com dicas e sugestões postadas aqui regularmente.

Postura

Uma das coisas mais importantes no início, é manter-se consciente da sua postura ao sentar-se ao piano e da posição das mãos. As regras básicas de postura são:

  1. Coluna alinhada;
  2. Planta dos pés no chão ao menos que você vá utilizar os pedais;
  3. A distância ideal entre a banqueta e o teclado deve acomodar a distância das mãos fechadas até o ombro;
  4. Ajustar a altura da banqueta para manter os cotovelos alinhados à altura do teclado, uma banqueta com regulagem de altura auxiliará na hora de encontrar a altura ideal;
  5. Manter os dedos levemente curvados, colocando as mãos nos joelhos é possível observar a posição ideal das mãos, no começo é importante se ater para que as falanges não dobrem para fora;
  6. Mantenha punhos, cotovelos e ombros relaxados. Um bom exercício é levantar os braços a uma altura de 30 a 40 centímetros e deixar cair livremente no colo. Esta sensação de “queda” é essencial para uma boa sonoridade e para uma execução com menos tensão.

É fato que não é possível manter a “boa postura” de forma estática e sólida, às vezes inconscientemente nos curvamos ou subimos o ombro, o importante é lembrar de ir corrigindo os maus hábitos ao longo do estudo. A dica aqui é estudar com um espelho e se gravar regularmente. Uma vez que você não terá um professor ao lado com tanta frequência, você mesmo vai poder se observar e se ouvir. Mais dicas de porquê estudar com um espelho aqui.

Qual seu nível de piano?

Quando a gente pensa em piano, ou música para piano, os primeiros nomes que vêm à mente são Beethoven e Chopin, para os mais familiarizados com o repertório, Liszt, Rachmaninoff e Debussy. Estes são grandes compositores muito importantes para a história da música que produziram um vasto repertório para piano e outras instrumentações, além de terem sido essenciais para a consolidação de gêneros e estilos inerentes à época de cada um, e são o ideal que a maioria dos alunos têm em mente quando perguntados sobre o que gostariam de tocar. Contudo, ao começar a ter aulas de piano, levará um bom tempo até que o aluno toque alguma obra destes compositores, já que, grande parte das obras desses compositores estão classificadas entre os níveis intermediário tardio e avançado. Algumas peças de Chopin, Liszt e Rachmaninoff, por exemplo, estão entre as obras mais difíceis para piano já escritas na história e há uma quantidade de habilidades técnicas e estéticas que precisam ser assimiladas antes de enfrentar um repertório de tão alto nível. 

O ensino de piano é uma atividade organizada e estruturada de forma convencional e progressiva da mesma forma que o ensino da escola. Os conservatórios utilizam níveis que vão do preparatório ao avançado, mas como descobrir o seu nível? Qual o caminho para “passar” de nível e ser capaz de tocar peças mais difíceis?

Uma boa ferramenta são os currículos dos conservatórios. Nem todos os conservatórios têm seus currículos online para consulta, mas há bastante deles por aí, há também o guia de níveis da editora Henle Verlag. Abaixo, selecionei alguns dos programas que encontrei online. Note que inclui conservatórios de Portugal, pois o conteúdo é similar ao brasileiro. O Royal Conservatory segue um sistema próprio de classificação e há divergência de 1 ou mais níveis quanto à classificação de uma mesma peça. Já o guia de níveis da Henle, é um guia mais profissional que leva em consideração a preparação da peça para performance.

  1. Conservatório Amazonense
  2. Conservatório de Braga (Portugal)
  3. Conservatório Escola das artes (Portugal)
  4. The Royal Conservatory (Inglaterra)
  5. Guia de níveis da editora Henle Verlag

No Brasil, os conservatórios organizam seus cursos em: preparatório e nove “anos” de estudo, sendo que os últimos dois ou três anos correspondem ao nível técnico. O aluno que completa o nível técnico, desde que tenha concluído ou esteja cursando o ensino médio, recebe o certificado de técnico em música. Nem todos os conservatórios oferecem cursos reconhecidos e regulamentados pelo MEC, portanto, se o aluno deseja o nível técnico é importante se informar com a direção do conservatório se o curso é reconhecido. Alguns dividem os nove anos em 3 níveis diferentes (iniciante, intermediário, avançado) com provas e requisitos para passar para o nível seguinte, outros seguem progressivamente ano a ano, enfim, depende da direção de cada instituição.

Geralmente, o preparatório e os anos que antecedem os anos do curso técnico são considerados curso livre. Cursos livres não são obrigados seguir um programa, cronograma, carga horária e grade curricular regulamentados com o MEC, depende de como a escola quer conduzir o curso e portanto não há a obrigatoriedade de ficar um ano inteiro em cada nível. O Royal Conservatory of Music, por exemplo, oferece exames a cada nível e mesmo pianistas experientes que não estudaram no sistema RCM podem fazer os exames e obter o certificado.

Usando o conteúdo programático como guia, você consegue entender qual seu nível e ganha autonomia para escolher outras peças para fazerem parte de seu repertório. Por exemplo, suponhamos que um aluno esteja tocando a Bagatelle WoO 59, famosa Für Elise. O guia da Henle classifica a obra no nível 3, o Royal Conservatory classifica no nível 7 e no Brasil é uma peça tocada por alunos do 5º ano.

Agora, de maneira mais prática, peças que se enquadram no seu nível, são peças que você consegue aprender e tocar em um andamento próximo do indicado em um prazo de aproximadamente 30 dias. As dificuldades técnicas e de leitura são, em maior parte, compatíveis com o que você já consegue tocar e possivelmente inclui um ou outro elemento novo não estudado previamente. Se você consegue ler a primeira vista e tocar sem dificuldade, a peça provavelmente está abaixo do seu nível, não significa que você não deva tocá-la. Se a peça é tão difícil que você ficará 1 ano ou mais estudando, você tem que praticamente aprender compasso por compasso para conseguir assimilar, ela provavelmente está bem acima do seu nível. O ideal é manter um conjunto de peças que incluam peças no seu nível e 1 peça que esteja a no máximo 2 níveis acima do seu. É verdade que estudar um repertório mais avançado colabora para a evolução, contudo peças muito acima do seu nível não vão lhe acrescentar muito e você pode acabar frustrado por não conseguir tocá-las como desejava. Lembre-se que estudamos piano para fazer música e, portanto, ser capaz de fazer música é ser capaz de tocar a obra inteira. Passar o ano todo estudando uma obra avançada, aprendendo pequenos trechos por vez, é como fazer música por migalhas, seu desenvolvimento musical e artístico vai ficar comprometido. Enfim, tenha uma ou duas peças avançadas no seu repertório, mas toque peças dos mais variados estilos e períodos dentro do seu nível.

Livros, métodos e partituras

Seguindo os programas de conservatórios como guia você vai poder escolher quais livros escolher. Minha dica para quem está estudando sozinho, é procurar por partituras que incluam dedilhado. Vale lembrar que os dedilhados indicados na partitura são, em maior parte, sugestões, você pode encontrar dedilhados que funcionem melhor para você, lembre-se apenas de marcar o novo dedilhado e usá-lo sempre. Se você é iniciante, eu recomendo que você tente seguir ao máximo a indicação do editor, com o tempo você vai ter mais conhecimento de padrões da linguagem pianística e será capaz de encontrar dedilhados diferentes.

Caso você seja iniciante e precise de sugestões de livros, você vai encontrar algumas no meu post: Ensinando alunos adultos.

Disciplina

Aprender um assunto novo leva tempo e dedicação e para ter bons resultados o ideal é ter constância no esforço empregado. Aprender piano não é diferente, e como você estará sozinho em maior parte, cabe a você manter um cronograma e uma boa estrutura de estudo. Também cabe a você se manter motivado para não desanimar e desistir.

Estruturar o estudo

Para atingir um bom grau de proficiência no instrumento, o ideal é praticar diariamente de 30 minutos à 1 hora. Como é normal que o tempo de prática varie, acho interessante estabelecer um mínimo de 30 minutos. Talvez hajam dias onde você tem mais tempo, ou se sente mais inspirado e decida passar muito mais tempo no piano, mas é legal ter um tempo mínimo de prática para os “dias chuvosos” onde parece que não há inspiração nem disposição. Há quem estude religiosamente todos os dais, e há quem tire um ou outro dia de folga durante a semana. Honestamente, acredito que muitas vezes = as pausas são mais produtivas que o excesso de prática, então seja gentil com você mesmo, e quando necessário, descanse.

Você pode estruturar seus 30 minutos da seguinte maneira:

  • 10 minutos de aquecimento: estudo de escalas, arpejos, acordes e estudos;
  • 5 minutos de leitura para aprender peças novas;
  • 10 minutos melhorando trechos que você tem dificuldade;
  • 5 minutos para “passar” o repertório.

É interessante alternar qual peça você dedica mais tempo a cada dia. O ideal é que você monte, desde o começo, um pequeno repertório que inclua peças de caráter e estilos contrastantes. No início, quando o aluno ainda não tem um repertório com diferentes compositores e períodos, e ainda está seguindo um método, eu procuro incluir uma peça mais alegre de andamento mais acelerado e outra mais lenta com andamento vagaroso, uma com dinâmica mais forte e barulhenta e outra mais melódica e doce, etc. A qualidade do pianista está na capacidade de ser flexível e conseguir tocar peças com diferentes caráteres.

Se gravar

Como você está confiando no próprio julgamento, é uma boa ideia gravar parte das sessões de estudo para ouvir/assistir depois. Outra sugestão é gravar todas as peças do repertório durante um semestre ou ano e no final assistir e comparar a evolução que você atingiu naquele período.

Referências

Ouça muita música, é importante ter bons pianistas como referência e, por isso, assista o máximo de performances que você puder e observe como os artistas se movem no instrumento, como “atacam” as teclas, os tipos de gestos, os resultados sonoros de cada gesto, etc.

Uma sugestão para conhecer artistas muito importante para a história da performance pianística é o documentário Art of the Piano Great Pianists of the 20th Century:

Entre os pianistas incluídos neste documentário estão: Wilhelm Backhaus, Alfred Cortot, György Cziffra, Annie Fischer, Edwin Fischer, Emil Gilels, Glenn Gould, Myra Hess, Josef Hofmann, Vladimir Horowitz, Arturo Benedetti Michelangeli, Benno Moiseiwitsch, Francis Planté, Sergei Rachmaninov, Sviatoslav Richter e Artur Rubinstein.

Eu tenho outros posts com sugestões de pianistas para você dar uma olhada também: 5 jovens pianistas que valem a pena conhecer e 12 pianistas mulheres para conhecer.

Acompanhamento periódico

Por fim, minha sugestão final, é que você procure ter aulas periodicamente para ter certeza que você está seguindo um bom caminho e focando no que é mais importante para o seu desenvolvimento. Mesmo que você opte por aulas esporádicas, receber o feedback de alguém com mais experiência vai ser sempre positivo.

Caso seja difícil para você encontrar professores na região onde você mora, que tal procurar um professor que ofereça aulas online? As aulas online não perdem para as presenciais e você conseguirá ótimos resultados desde que mantenha a prática constante. Caso você não consiga incluir aulas particulares no seu orçamento, eu sugiro que você procure se informar sobre festivais, oficinas e workshops acontecendo na sua região e de forma virtual também. Festivais são ótimos para fazer contato, ouvir novas ideias, ouvir outros pianistas tocarem e participar das masterclasses. Há inúmeros festivais de música que oferecem aulas gratuitas ou com uma taxa de inscrição com valor acessível. Você vai aprender bastante tocando e assistindo a aula de outros alunos.

Se você acompanha o blog, estuda sozinho, já consegue tocar algumas peças, mas parece que o estudo estagnou. Talvez você não esteja evoluindo ou não sabe que o próximo passo nos seus estudos e gostaria de uma avaliação de como você está tocando, preencha o formulário “Qual meu nível de piano?” e inclua um ou mais vídeos de você tocando que eu entrarei em contato. É uma cortesia que estou oferecendo para os leitores. Você receberá sua avaliação por email que incluirá comentários sobre o vídeo, sugestão de exercícios e/ou estudos para melhorar sua técnica e indicação de material e/ou outras peças que vão te ajudar a evoluir.

Obrigado por ler até aqui!

Comentários e sugestões são sempre bem vindos!

Daniel

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